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dimanche 9 août 2009

Cuide de você SOPHIE CALLE Prenez soin de vous

De volta ao Brasil, algumas pessoas vieram comentar comigo sobre a exposição da francesa do momento aqui em São Paulo : Sophie Calle. Não sei se não me explicaram direito do que se tratava ou se eu não prestei muita atenção, mas o fato é que sabia da exposição mas não sabia bem do que se tratava.

Na verdade até me perguntei algumas vezes do que se tratava, já que ela participou em junho da Flip, o que me fez concluir, sem pesquisar muito, que ela era uma escritora e, então, o que ela estaria expondo?

O que motiva a exposição é um email que Sophie Calle recebeu de seu namorado X terminando o relacionamento com ela. Depois de ter visto o filme Bem-vindo, parece que todas as motivações do homem se justificam pelo amor e o tema começava a me parecer um pouco repetitivo e meloso. Engano meu!

Sophie Calle transforma esse email de rompimento em um divertido trabalho artístico e literário. Ela pede a 107 mulheres uma interpretação profissional para o tal email e o resultado esta apresentado na exposição através de vídeos, retratos e trabalhos feitos em cima do texto de X ou de suportes representativos das profissões (tabuleiro de xadrez, receita médica, palavras-cruzadas, etc.).

Além disso, é legal ver que as profissões ligadas ao texto estão bastante representadas (tradutora, revisora, latinista, escritoras, etc.), fato raro quando a intenção é representar as profissões.

SOPHIE CALLE Cuide de você

De 10 de julho a 7 de setembro de 2009
SESC POMPEIA - Rua Clélia, 93, Pompeia - São Paulo
Tel. (11) 3871 7700
De terça a sábado, das 10h às 21h
Domingos e feriados, das 10h às 20h

De 22 de setembro a 22 de novembro
MUSEU DE ARTE MODERNA DA BAHIA


mardi 4 août 2009

Em busca de La Disparition

Pouco antes de voltar pro Brasil, meu namorado foi obrigado a dar uma passadinha rápida por Paris. Para aproveitar a oportunidade, fizemos uma listinha com alguns livros que a gente tinha que comprar lá, afinal a Gilbert Jeune e a Gilbert Joseph oferecem os livros no formato de bolso de forma semi-organizada, com um preço adequado, e muitos com opções de livros usados (pela metade do preço original).

Partimos da seguinte lista :

. Thérèse philosophe avec le préface de Mme Lotterie: já li esse livro para uma matéria, no entanto, minha professora fez o prefácio para a edição de bolso.
. Histoire de l’art (Gombrich): todos os motivos para comprar mas apesar de não estar tão caro, ele era de qualquer jeito 29 euros, além disso, se não é pra ler na língua original, leio em português, né?!
. O Muro (Sartre): li ainda no ensino médio e achei bem legal.
. La Disparition (Perec): explico depois.
. Jean Marie Gustave Le Clézio (nobel): ganhou o prêmio nobel, apesar da escolha ter sido bem criticada.
. La Princesse de clèves (Mme de Laffayette): gerou polêmica quando o Sarkô questionou a sua importância em um concurso publico.
. Jacques le fataliste (Diderot): curioso, não?!

Após algumas indas e vindas do meu namorado entre as duas livrarias e umas 10 ligações de celular, adicionamos uns, não achamos outros e acabamos comprando :

. O Muro (3,3 euros).
. le clézio, Le Procès-verbal (3 euros).
. Jaques le fataliste (2,25 euros).
. A Insustentável leveza do ser, do kundera (5,5 euros): adicionado à lista porque o kundera também escreve em francês e a gente já tinha curiosidade por esse livro.
. Justine (5 euros): Sade e a literatura pornográfica do século XVIII.
. Le Rouge et le noir (2,75 euros): a gente tinha comprado antes, sem querer, um livro só com as "melhores partes", como o texto integral estava barato foi adicionado à lista.
. O Estrangeiro (2,25 euros): comprei de presente para uma amiga que está aprendendo francês, além de ser um bom livro, não é tão complicado para quem já sabe um pouquinho.

Acho que fizemos boas compras no fim das contas. No entanto, agora, La Disparition do Perec está me fazendo falta. Ouvi falar do Perec com muita frequencia na minha aula de Edição Científica Digital, usamos um texto dele (Experimental Demonstration of the tomatotopic organization in the soprano - Cantatrix sopranica L.) de forma intensa para aprender um pouco de XML. Como a aula era um pouco complicada e o texto não facilitava, o pobre Perec foi quase odiado. Mas uma amiga me falou pra ter calma que ele era um cara legal!

Passado alguns meses do fim dessas aulas, fui procurar novamente o Perec. Achei na biblioteca seu primeiro livro Les choses e achei muito bom, diferente, ele usa frases curtas e diversas palavras para a composição e a caracterização dos ambientes e dos personagens. No entanto, o que mais me chamou atenção foi um outro livro: La Disparition. Há muito tempo atrás, eu tinha ouvido falar de um livro que tinha sido inteiro escrito sem uma das vogais. Lembro que fiquei interessada, mas não me engajei muito na busca.

Não preciso nem dizer que se trata exatamente de La Disparition. Pois é, li em algum lugar que o que o Perec faz é meio que misturar a literatura com a matemática... e então ele escreveu esse livro sem utilizar a vogal e. Até onde eu sei, esse livro não foi traduzido e fico imaginando como isso poderia ser feito (até descobri depois que esse era um dos grandes desafios do pai de duas amigas minhas), mesmo porque o e em francês acho que corresponderia mais ao nosso a. Será que a tradução seria sem o a ou sem o e? Interessante! Se alguém descobrir uma solução me conta! Se não, achei o livro em francês pelo site da Livraria Cultura por 31 reais (disponível em até 10 semanas). Vou ver se mato minha curiosidade.

Sinopse do livro no site da Livraria Cultura:
Disons, sans plus, qu'il a rapport à la vocalisation. L'aiguillon paraîtra à d'aucuns trop grammatical. Vain soupçon - contraint par son savant pari à moult combinaisons, allusions, substitutions ou circonclusions, jamais G.P. n'arracha au banal discours joyaux plus brillants ni si purs. Jamais plus fol alibi n'accoucha d'avatars si mirobolants. Oui, il fallait un grand art, un art hors du commun, pour fourbir tout un roman sansça.

mardi 26 mai 2009

Adaptações da literatura para o cinema

O Festival de Cannes acaba de acabar e, em homenagem a todo esse tempo em que o festival foi assunto número 1 na França, voilà um post sobre cinema. Mas, na realidade, tudo começou há um tempinho atrás quando, pensando sobre alguns temas interessantes para palestras sobre editoração, comecei a me perguntar sobre as interações entre o cinema e a literatura. Um assunto que não vemos em sala de aula, mas que se desenvolve cada vez mais.

Algumas informações sobre o assunto vieram num belo dia chuvoso, às 21h30 da noite, quando meu namorado se deu conta de que não tinha comprado (e precisava comprar) a edição número 20.000 do Le Monde. Como era um pouco tarde e, em Lyon, as lojas não ficam abertas de jeito nenhum à noite, a nossa única esperança foi a estação de trem : deu certo! Depois de descer de bicicleta até a estação (observe que chovia), achamos a linda edição número 20.000. E a minha recompensa veio junto : como era sexta-feira, o Le Monde veio com o caderno Le Monde des livres! E foi la que eu achei uma dupla inteirinha sobre a relação entre editoração e cinema (De l’écrit à l’écran – désirs d’adaptations / Do escrito à tela – desejos de adaptações).

O Dossier do Le Monde sobre o assunto começa mostrando que existem dois tipo de transposição de um livro para a tela : “a da arte e a do dinheiro, da poesia e da economia”. Sendo que, geralmente, a primeira é concebida e idealizada pelo cineasta (que busca uma aproximação cultural e tenta pegar o espírito da obra literária) e a segunda pelo produtor (que faz uma “vampirização” de assuntos já consagrados).

É assim que começam as questões sobre o que uma boa adaptação. E “quais são os critérios de um bom texto adaptável?” A produtora de Prends soin de toi, Michèle Halberstadt, diz que o essencial é a história, que o público quer um enredo. No entanto, mesmo se os autores não estão sempre de acordo com as adaptações que são feitas de seus textos, a maioria deles concordam que “todas as adaptações, mesmo as piores, levam os espectadores às paginas de seus livros.”

Mas e o editores? Considerando a multiplicação das adaptações das obras literárias, os editores passam à ofensiva e as reuniões com produtores ganham espaço em suas agendas nos salões e feiras do livro. No ultimo Salão do livro de Paris, conta-se uma média de 15 reuniões por editor. Além disso, eles começam a exigir mudanças nos contratos. À princípio, autor e editor têm direito a uma remuneração mínima garantida, mas também a uma porcentagem calculadas sobre a receita líquida do produtor obtida à partir das diferentes formas de exploração do filme. No entanto, os editores começam a se definir como um bloco para se impor e exigir algumas mudanças como “remuneração bruta, valorização do assunto, limitação dos direitos de adaptação”.

Por outro lado, o autores também se mobilizam já que têm a opção de se dirigir diretamente aos produtores. Em Mônaco, entre 19 e 21 de março, o Fórum cinéma et littérature, que existe há 8 anos, colocou em contato cineastas, cenaristas, agentes, autores e atores com o objetivo de ser “um banco de idéias internacionais para os profissionais do cinema, da literatura, da televisão, das HQs e dos jogos de videogame.

Inclusive, os quadrinhos acompanham as evoluções das adaptações da literatura para a tela. “Para a número 1 em HQ na França, a adaptação para o cinema se transformou em um comércio extremamente lucrativo, com um aumento de vendas entre 20% e 30%.” Além disso, alguns contratos de cessão de direitos audiovisuais permitem que os cenaristas de HQs participem do trabalho de adaptação ao cinema.

Minha opinião : eu adoro as adaptações e mesmo se as adaptações são ruins, elas estimulam a discussão e incentivam a leitura do livro. É uma forma de falarmos do cinema, da literatura e também de voltar um pouquinho a um livro que gostamos, ou não, e de ver que, mesmo se o que esta escrito é exatamente o mesmo para todos os leitores, a história que cada um lê é totalmente diferente.